Bento XVI para a Quaresma
Artigo publicado originalmente
em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 60,
de março de 2010
por padre Vando Valentini, pároco
Vejam que bonitos os trechos da mensagem do nosso Papa para a Quaresma de 2010 que transcrevo aqui!
“[...] Podemos entrever [...] uma tentação permanente do homem: identificar a origem do mal com uma causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem “de fora”, para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua realização. Essa maneira de pensar - admoesta Jesus - é ingênua e míope. A injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, em que se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. [...]
Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, percebe dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram a lógica de confiar no Amor pela da suspeita e da competição; a lógica do receber, da espera confiante do Outro, pela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho, experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza. Como pode o homem libertar-se desse impulso egoísta e abrir-se ao amor? [...] Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da autossuficiência para descobrir e aceitar a própria indigência - indigência [necessidade, nde] dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.
Compreende-se então como a fé não é um fato natural, cômodo, óbvio: é necessário humildade para aceitar que é preciso que um Outro me liberte do “meu”, para me dar gratuitamente o “seu”. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça “maior”, que é a do amor, a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar. Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, em que todos recebam o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e em que a justiça é vivificada pelo amor.”