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Quaresma

Fraternidade, economia e vida

Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 59, de fevereiro de 2010
 
por Francisco Borba Ribeiro Neto
(Núcleo Fé e Cultura/PUC-SP)

A Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010 tem um tema difícil e desafiador: economia! Parece um tema destinado a incontáveis debates ideológicos, muita política e pouca fraternidade... A fraternidade e a solidariedade estão ligadas indissociavelmente à questão da economia. Mas esse é um vínculo ético e nosso mundo vê a política como terreno de luta por poder e não de realização de um ideal ético.

Neste contexto, a última encíclica de Bento XVI, Caritas in veritate, vem em nosso socorro. Ajuda-nos a entender a contribuição da Doutrina Social da Igreja para a vida econômica e política atual — mostra, principalmente, que a fraternidade e a solidariedade não são objeções, mas sim condições, para uma economia a serviço do bem comum. Sem querer fazer uma síntese da encíclica, vejamos alguns pontos importantes para a reflexão nesta Campanha da Fraternidade:

1) Não há sistema socioeconômico ou projeto político-ideológico que possa garantir o bem comum. O ser humano é pecador, contraditório: criado para o bem, sua liberdade permite-lhe voltar-se para o mal. Por isso, sem o comprometimento da liberdade pessoal, qualquer sistema ou projeto pode voltar-se contra o bem comum. Somente quem faz a experiência de ser amado, perdoado e renovado pelo amor consegue engajar toda a sua liberdade na construção do bem comum, indo contra as tentações do poder, os interesses egoístas e até a infidelidade dos companheiros. Por isso, encontrar Cristo é fundamental inclusive nos aspectos mais concretos da vida econômica.

2) Nossa maior exigência ética é a solidariedade. Por trás de crises econômicas como a atual, de desgraças que afligem povos como o haitiano, ou de políticos corruptos que enchem as páginas de nossos jornais, está sempre a falta de solidariedade. Sociedades solidárias criam sistemas econômicos mais robustos porque, atentos ao bem comum, são menos vulneráveis a crises e tem maior facilidade de superá-las. Ajudam as pessoas a se desenvolverem integralmente e, com isso, a estarem mais protegidas das catástrofes naturais e a não se deixarem levar pelos demagogos e pelos políticos populistas. Por isso, nossa primeira responsabilidade pessoal é com a solidariedade para com os mais pobres e em situações mais fragilizadas.

3) Contudo, não basta querer ser solidário. A solidariedade tem de ser também um convite ao protagonismo da pessoa. O Estado e os governos devem ajudar cada um a se tornar o protagonista da própria vida. Por isso, a Igreja é contra o assistencialismo e o populismo, e defende a subsidiariedade, palavra pouco usada entre nós, mas que significa “ajuda”: o Estado deve ajudar a pessoa a ser protagonista de sua vida e não querer administrar a sua vida com projetos assistencialistas.

Esses critérios podem orientar tanto a vida pessoal quanto as opções políticas e eleitorais. São compromissos permanentes de cada cristão.