O Menino e sua Mãe
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 58,
de dezembro de 2009 e janeiro de 2010
por padre Milton Schreiber
Todo fim de ano celebramos festivamente um menino e sua mãe. Quem são eles? Lemos no apocalipse: “Uma Mulher vestida de sol estava grávida. Um grande Dragão cor de fogo colocou-se diante da Mulher a fim de lhe devorar o Filho, tão logo nascesse. [...] E a Mulher fugiu para o deserto. [...] O Dragão foi guerrear com o resto dos descendentes da Mulher, os que observam os mandamentos de Deus” (Ap 12,1.3.4.6.17). A Mulher é Maria, que guardou seu Filho no ventre e agora guarda seus filhos na fé, chama tão trêmula comparada com a imponente labareda do Dragão. A Mulher é a Igreja, que todo ano celebra o nascimento do menino para que seja de fato acolhido pelos que não se deixam arrastar pela cauda do Dragão. O Dragão vermelho é tudo o que tenta consumir a fé que dá atenção ao menino e impede que ele cresça na vida dos que celebram seu nascimento. Esse Dragão vermelho tem sido o comunismo ateu, que matou milhões de filhos da Mulher e impediu que em outros milhões a fé nascesse. Vestido de outra cor, foi também tão cruel o nazismo, assim como qualquer outra ideologia sedenta de sangue.
Agora, na versão nova, está sendo o laicismo que não suporta sequer a imagem do sacrifício do menino, que dá o nome de “festa do inverno” ao dia 25 de dezembro, representando bem o gelo dos corações, ao que nós festejamos como o Natal do Senhor no calor dos lares e da fraternidade que tão bem essa festa inspira. O Dragão é o consumismo, que tira o menino que só traz a si mesmo como dom, e põe um velho com roupagem cor de fogo, que alimenta a ilusão de que a felicidade está em satisfazer qualquer desejo, que distrai as crianças da atenção ao menino e do apreço pela sua presença. Dragão é aquela mídia anticristã que quer manter prisioneira a verdade (Rm 1,18) e persegue a Mulher, buscando devorá-la.
O que deve então fazer a Mulher, a Igreja? Fugir para o deserto, a saber, concentrar-se intensamente em si mesma para se dar conta da sua identidade na fé, recolher-se com o menino para, na oração, aprender a amá-lo acima de tudo, a não se aliar ao poder mundano, para se persuadir sempre mais de que “nada nos pode separar do amor de Deus manifestado no Cristo Jesus” (Rm 8,39), para ouvir a Palavra “ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16,33), pois “n'Ele somos vencedores” (Rm 8,37).
Portanto, nestes nossos dias não podemos permitir que nos roubem o Natal, precisamos fazer de tudo para descobrir a verdade do Natal, sorvendo o cerne de toda a sua razão e de sua substância, recuperando tantas maneiras de celebrar e manifestar a fé que a tradição fiel foi criando através da história das comunidades, inventando outras formas de mostrar sem receios a alegria por receber tão grande dom, um Deus que quis se mostrar menino para melhor nos atrair, um Jesus que já cresceu, mas que não perdeu sua capacidade e disposição para se doar, buscando uma correspondência na chama de nosso grato, sincero e forte amor.