Desapega-te dos bens do mundo
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 56,
de outubro de 2009
Num dia de fevereiro de 1209, Francisco de Assis ouviu as palavras do Evangelho “Não leveis ouro, nem prata, nem alforje...”, e teve um gesto insólito: para mostrar que nada tem valor quando se antepõe a Deus, despojou-se das suas roupas, vestiu uma túnica, cingiu-se com uma corda e pôs-se a percorrer os caminhos, confiando somente na Providência Divina. Numa época em que eram grandes o brilho externo e o poder político e social, o Senhor chamou Francisco para que sua vida pobre fosse um fermento novo naquela sociedade que, pelo seu apego aos bens materiais, se afastava cada vez mais de Deus.
A pobreza é uma virtude cristã que o Senhor pede a todos, mas é evidente que os cristãos que estão no mundo devem vivê-la de um modo diferente de como a viveu São Francisco e de como a vivem os religiosos que, pela sua vocação, devem dar um testemunho público da sua consagração a Deus. A pobreza do cristão comum tem por base “o desapego, a confiança em Deus, a sobriedade, a disposição para compartilhar”.
As palavras do Senhor ressoam em todos os tempos: “Não podeis servir a Deus e às riquezas”. É impossível agradar a Deus, levá-lo pelos caminhos da terra, se ao mesmo tempo não estamos dispostos a algumas renúncias na posse e no gozo dos bens materiais. Esse aviso do Senhor pode parecer estranho numa época em que um desmedido afã de comodidades alimenta diariamente a cobiça das pessoas e das famílias. Devemos estar desprendidos dos bens materiais, desfrutando deles como bondade criada por Deus que são, mas sem considerar necessárias, para a saúde e para o descanso, as coisas de que podemos prescindir com um pouco de boa vontade.
Santo Agostinho aconselhava aos cristãos do seu tempo: “Procurai o suficiente, procurai o que basta. O resto é aflição, não alívio; esmaga, não levanta”. Como o santo conhecia bem o coração humano! Porque a verdadeira pobreza cristã é incompatível com o supérfluo, com o excessivo. Na Sagrada Escritura, a virtude da pobreza expressa a condição de quem se colocou absolutamente nas mãos de Deus, deixando nelas as rédeas de sua vida, sem querer outra segurança. Ao mesmo tempo exige de nós a condição de sermos “mais um entre nossos irmãos, os homens”, de cuja vida participamos, com quem nos alegramos, com quem colaboramos, a fim de estabelecer um ambiente espiritual e material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades. A virtude da pobreza nos leva a uma profissão de fé em Deus, pois nosso coração não se satisfaz com as coisas criadas, mas aspira ao Criador, desejando saturar-se de amor a Deus e depois dar a todos desse mesmo amor. Da pobreza derivam muitos frutos; a alma prepara-se para os bens sobrenaturais e o coração dilata-se para ocupar-se sinceramente dos outros.
Peçamos ao Senhor, por intercessão de São Francisco, a graça de compreendermos com maior profundidade que a pobreza cristã é um dom que já tem o seu prêmio nesta vida. O Senhor dá à alma desprendida uma especial alegria, mesmo que lhe chegue a faltar o que lhe parece mais necessário. Muitos se sentem infelizes, precisamente por terem demasiado de tudo. Os cristãos, se verdadeiramente se comportam como filhos de Deus, poderão passar incomodidades, calor, fadiga, frio... Mas jamais lhes faltará a alegria, porque isso tudo, quem o dispõe ou permite é Ele, e Ele é a fonte da verdadeira felicidade.