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Vida da Igreja

Mês da Bíblia

Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 55, de setembro de 2009
 
por padre Milton Schreiber

“Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13). Assim confessa São Paulo, ao concluir sua carta aos filipenses, após evocar os sofrimentos suportados por amor a Cristo no exercício da evangelização, não para se lamentar, mas para agradecê-los pelo apoio neles encontrado e para lembrar a sua grande satisfação pela afetuosa e fervorosa acolhida que a comunidade reservou para a Palavra do Evangelho.

Mas, fazendo tesouro da frase paulina para além da situação concreta por ele vivida, qual o alcance que essa frase pode ter como estímulo para a nossa fé?

Anos atrás, foi realizada uma ampla pesquisa por amostragem junto à população de São Paulo para saber o que as pessoas esperavam da Igreja católica. Uma das duas respostas mais freqüentes foi: conforto espiritual. O que as pessoas entendem por conforto espiritual? Talvez um consolo na tribulação que a faça desaparecer, um apoio divino para a realização de nossos sonhos, uma expressão de amor que nos poupe de ter que corresponder-lhe com uma vida de sacrifício.

Mas o que a Palavra de Deus entende é uma força que ela quer nos transmitir para superarmos a nós mesmos, uma força que nos persuada de sua verdade e valor. O “tudo posso” vem a ser “tudo o que eu vos dei a conhecer”, como disse Jesus (Jo 15,15), de forma que sua palavra não nos resulta mais impraticável, ultrapassada, fora da realidade, mas passa a ser a grande realidade que nos eleva e em nós infunde esperança, nos faz captar o sentido maior da vida. O que nos compete é fazer tudo o que está ao nosso alcance para que a Palavra de Jesus possa realmente ser acolhida por nós com toda a sua força.

Tem sido a presença dessa palavra na vida de tantos cristãos que os torna ainda hoje capazes, em países comunistas, islâmicos e hindus, de sofrer incompreensões, perseguição, a prisão, o confisco dos bens, o degredo, o linchamento, a condenação à morte, enquanto outros renegam sua fé para garantir a satisfação de paixões humanas. É a força do Salvador que torna tantos ainda hoje capazes de dedicar-se inteiramente aos miseráveis, aos hansenianos, aos doentes terminais, aos inválidos cujas famílias não mais os suportam; por essa força, aidéticos da África recebem com dignidade por parte dos cristãos toda a assistência para sua saúde, enquanto não faltam os que só pensam em lucrar em cima da desgraça alheia. Há ainda os que, fortalecidos pela Palavra, não se deixam seduzir por propostas de fácil enriquecimento, pois colocam sua esperança na herança eterna, nem pela fama às custas da verdade, pois aprenderam a basear sua liberdade na verdade. Preferem renunciar a privilégios ambíguos antes do que ter de renunciar à própria dignidade de filhos de Deus.

A Palavra é crível porque testemunhada pela força de pessoas humanamente frágeis e desprovidas de arrogância. Como não lembrar o testemunho de fé ardente daquela menina católica ante o câncer (Glória Strauss, falecida aos onze anos), que gerou dezenas de conversões à nossa fé? “O milagre não é realizarmos esse trabalho, mas que sejamos felizes fazendo-o” (Santa Teresa de Calcutá).

Com elas precisamos ter vontade de imitar, mesmo que em circunstâncias bem menos exigentes, mas que também pedem uma vontade plena de dedicação. Vale sempre o dito que nada deixa de ser grande, quando a alma não é pequena.

Que seja a Palavra forte de Jesus a dilatar a nossa alma. Uma vida fortalecida pela Palavra de Deus olha para o futuro como realização da promessa de Deus. Por isso Paulo pode também afirmar: “Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,21). A morte não passa a ser vista como fim, mas como coroação da vida, como realização do supremo encontro com Aquele que inspirou toda a vida presente. Se céus e terra passarão, mas as palavras de Jesus não passarão (cf. Mt 24,35), igualmente não passarão aqueles que viveram animados por essas Palavras.