Festa da Epifania
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 48,
de dez. 2008/jan. 2009
por padre Milton A. Schreiber
O tempo do Natal compreende várias festividades. Uma delas tem o nome de “epifania”. A palavra grega quer dizer “manifestação”. De fato, o que nos envolve neste tempo é a manifestação do amor de Deus ao enviar seu Filho como filho da humanidade, o mais excelente de todos, aquele no qual nós, como humanidade, chegamos à máxima realização do que é o humano. Eis uma primeira revolução no campo das religiões: Deus não se manifesta, como muitos tendiam a imaginar, qual ser distante, indiferente, invejoso, concorrente do homem, caprichoso, difícil de agradar, ou até vingativo, mas, sim, como alguém próximo, acessível, benigno, não sendo preciso fugir dele, ou praticar magia para afugentá-lo ou para dobrá-lo.
Todavia, o nome de “epifania” foi reservado pelo uso para a festa do dia 6 de janeiro, quando a dignidade divina e humana de Jesus começou a ser reconhecida e acolhida por aqueles dos quais a maior parte de nós, cristãos, derivamos, os pagãos, os que não estavam sendo preparados pela observância da Lei de Moisés. De fato, os magos do Oriente representam o chamado de todos os povos para entrarem no único corpo de Cristo, que é a Igreja. Eis uma segunda grande revolução: os pagãos são chamados a constituir em pé de igualdade o mesmo povo de Deus ao qual pertenciam os judeus. Sua graça se manifesta então ainda maior, para alcançar o reconhecimento grato dos que não tinham sido preparados para tanto.
Mas quem eram exatamente esse magos? Que essa denominação não nos confunda. Na verdade, são sábios que buscam discernir os desígnios divinos, e, portanto, a consistência e as perspectivas para a humanidade, não mediante a observância da Lei de Moisés, mas pela observação dos astros e de outros sinais da natureza. Não eram magos no sentido atual, e nem propriamente cientistas, pois seu intento não era estudar a natureza para colocá-la a serviço dos homens, mas, sim, estudar os desígnios de Deus para os homens se colocarem a serviço do divino, adorando-o e vivendo em harmonia com a natureza. Diferentemente dos judeus, não sabiam de Deus por intermédio de sua história e das Escrituras sagradas, e, diferentemente dos modernos, estudavam a natureza para saber a respeito de Deus. Eis uma terceira revolução no âmbito das religiões: desde então foi possível integrar na sabedoria da fé a contribuição da cultura: filosofia, artes, ciência, construindo a nova versão da busca da sabedoria. O divino e o humano em Jesus se refletem na busca da realização humana na unidade de cultura e fé. Esta, sem a ciência, pode desviar em superstição; a ciência, sem a fé, restringe o espaço da experiência plena que torna deveras humano o homem.
As dificuldades pelas quais passaram os magos já apontam para a dificuldade da realização dessa proposta na história. Longa viagem, a perda da visão da estrela, as mentiras e tramas de Herodes, o ter de voltar para sua terra por outro caminho. Depois de tantos esforços e ansiedade, eles, pessoas importantes, o que encontram? O que há de mais singelo: uma criança como tantas, no colo de sua mãe. Podiam se decepcionar, pensar que se haviam enganado. Mas não, aceitam a verdade como é, mesmo que não lhes agrade, que não os enalteça, que não corresponda a seus sonhos.
O que os magos oferecem representa quem é Jesus para nós e o que nós podemos ser para Ele. O ouro, o bem mais precioso, pois Ele é a nossa maior riqueza. O incenso: Jesus é a nossa oração, unidos a Ele nossa vida inteira é culto e sacrifício agradável a Deus. A mirra, usada na mumificação: Jesus é a nossa morte, por causa dele a nossa morte é a sua, e a nossa morte é a sua em nós. Por nossa vez, nós lhe oferecemos o ouro do empenho pela justiça e da sadia distribuição dos bens, contra a ganância e a exploração da natureza e das pessoas. O incenso da fé, da santidade e da confiança, contra a impiedade e a hipocrisia nas relações. A mirra da preservação e da defesa da vida contra o aborto, a guerra, o narcotráfico e todas as formas de violência e agressão à vida.
O Natal é festa da perene novidade cristã se Jesus é reconhecido como o grande presente do Deus Criador e Pai para nós, e se nós nos tornamos o presente para aquele que festejamos.