Mês das vocações
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 34,
de agosto de 2007
por padre Milton A. Schreiber
Agosto é o mês das vocações. Vocação é termo de origem latina para o que denominamos “chamado”. Segundo a nossa fé, toda a nossa vida e tudo o que fazemos são uma resposta ao chamado de Deus. Não existimos por um acaso ou por um descuido da natureza, muito menos somos os autores de nossa existência. Deus não nos criou simplesmente para existirmos ou para vivemos de qualquer jeito. Para nós também vale o que o profeta Baruc afirma do Deus criador: “Aquele que envia a luz e ela parte, que a chama de volta e ela, tremendo, obedece; brilham em seus postos as estrelas, palpitantes de alegria; ele as chama e elas respondem: ‘Aqui estamos’, cintilando de alegria para aquele que as fez” (Br 3,33-35). Não nos reconhecemos pelo famoso “penso, logo existo”, pois não somos em primeiro lugar autoconsciência individual, mas sim pessoas que começam a existir, e não só a ocupar um lugar no mundo, quando são capazes de reconhecer o alguém que as chama, e passam a responder com alegria: “Eis-me aqui”. O que nos impede de avaliar espontaneamente nossa situação real é a suspeita de que nossa liberdade esteja sendo posta em causa, e tendemos a só aceitar o que vem de Deus sob a condição de que nossa liberdade individual não seja violada. No entanto, chegar a responder livremente à existência e ao que fazer dela é resultado do mais eminente e pleno exercício da liberdade, pois só descobrimos quem somos após longa procura, que na verdade nunca cessa; e ainda, mesmo só querendo o que mais agrada a Deus, somos nós que temos de interpretar a maneira correta de exercer o chamado de Deus. De fato, Deus não nos chama simplesmente a existir, mas possibilita a cada um exercer uma missão na terra, que não identificamos de antemão por meio de um milagre, adivinhação ou golpe de sorte, mas que temos de descobrir à medida que fazemos o melhor que está ao nosso alcance. Vocação não é, portanto, algo que diz respeito a algumas pessoas especiais, nem algo que inevitavelmente acabamos fazendo, queiramos ou não. Viver a vida como resposta a Deus que chama significa fazer tudo o que fazemos, porque vemos nisso a maneira de traduzir o simples “eis-me aqui”. Viver a vida como posse individual é reproduzir o gesto de Adão, que quis se livra de Deus, mantendo todavia o que dele recebera, ou continuar a atitude de Caim, que quis se livrar do seu irmão, que lhe era um estorvo. É o caso, portanto, de cada um se perguntar: qual motivo me inspira e me sustenta na escolha ou na aceitação do que realizo em minha vida? Sou cristão a ponto de não imaginar outra existência a não ser na forma que me resulta mais adequada para responder ao sentido da vida que recebi gratuitamente de Deus? E, se ainda tenho condições ou necessidade de novas escolhas na vida, qual o critério que me faz pender para este ou aquele lado? Ainda: sinto-me capaz de apreciar e sinto-me enriquecido pelas escolhas que outros fazem como expressão de sua vontade de viver segundo a pauta do Evangelho? Enfim, o que me leva a optar por esta ou aquela escolha: a satisfação e o prazer pessoal, vantagens terrenas, ou porque vejo na minha escolha a maneira de melhor corresponder ao grande mandamento, o mandamento do amor?