O amor nos abre para
o “próximo”
Preparando o encontro de maio com o Papa (parte 4)
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 32,
de maio de 2007
por padre Vando Valentini, pároco
A seguir, propomos um texto de reflexão escrito a partir da encíclica de Bento XVI Deus caritas est, proposto pela equipe do Núcleo Fé e Cultura e publicado na revista especial sobre Bento XVI das Edições Paulinas.
“Há um nexo indivisível entre o amor a Deus e o amor ao próximo: um exige tão estreitamente o outro que a afirmação do amor a Deus se torna uma mentira, se o homem se fechar ao próximo ou, inclusive, o odiar. O amor ao próximo é uma estrada para encontrar também a Deus, e fechar os olhos diante do próximo torna cegos também diante de Deus.
Ele nos amou primeiro, e continua a ser o primeiro a amar-nos; por isso, também nós podemos responder com o amor. Ele nos ama, faz-nos ver e experimentar o seu amor, e dessa ‘antecipação’ de Deus pode, como resposta, despontar também em nós o amor.
Revela-se, assim, como possível o amor ao próximo no sentido enunciado por Jesus, na Bíblia. Ele consiste precisamente no fato de que eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isso só se pode realizar a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo. O seu amigo é meu amigo. Para além do aspecto exterior do outro, dou-me conta da sua expectativa interior de um gesto de amor, de atenção. Eu vejo com os olhos de Cristo e posso dar ao outro muito mais do que as coisas externamente necessárias: posso dar-lhe o olhar de amor de que ele precisa.
Se na minha vida falta o contato com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina. Se na minha vida negligencio completamente a atenção ao outro, importando-me apenas com ser ‘piedoso’ e cumprir os meus ‘deveres religiosos’, então definha também a relação com Deus. Só o serviço ao próximo abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama.
Os santos hauriram sua capacidade de amar o próximo, de modo sempre renovado, do seu encontro com o Senhor eucarístico e, vice-versa, esse encontro ganhou o seu realismo e profundidade precisamente no serviço deles aos outros. Amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis, constituem um único mandamento. Ambos vivem do amor com que Deus nos amou primeiro. Desse modo, já não se trata de um ‘mandamento’ que do exterior nos impõe o impossível, mas de uma experiência do amor proporcionada do interior, um amor que, por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros.”