Tempo do Natal
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 28,
de dezembro de 2006 e janeiro de 2007
por padre Milton Schreiber
“Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai” (Jo 16,28). Com essa frase Jesus resumiu toda a própria existência. Ao encarnar-se veio ao mundo, e ao sofrer a paixão e ressuscitar voltou ao Pai. Em decorrência, as celebrações litúrgicas são distribuídas em dois grandes ciclos. Um é o ciclo do Natal, que compreende também o tempo preparatório do Advento: nele celebramos, isto é, revivemos a própria vinda de Jesus ao mundo, abrindo-nos para acolhê-lo. Esse ciclo vai, este ano, do dia 3 de dezembro, 1º domingo do Advento, até a festa do batismo do Senhor, em meados de janeiro do ano que vem.
O outro é o ciclo da Páscoa, compreendendo a quaresma e o tempo até Pentecostes; nele nos dispomos para acompanhar Jesus na sua volta, para que Ele possa nos levar consigo até o Pai. Aliás, é para poder nos levar consigo na sua volta que o Filho veio a nós fazendo-se um de nós.
Mais ainda, a saída de Jesus a partir do Pai deu valor à saída de todas as coisas quando por Deus foram criadas: e Jesus é o ápice da criação, “o mais belo dos filhos do homem”, aquele sem o fal ficaria faltando o arremate final. A Páscoa, por sua vez, indica que tudo o que saiu de Deus precisa a Ele voltar, a criação inteira por intermédio do ser humano que a resume.
A encarnação do Filho de Deus foi para Ele um rebaixamento e ao mesmo tempo uma exaltação, pois Deus é exaltado quando mostra e realiza de modo humano o que Ele, somente Ele, é de modo divino. Um Deus que não só tem amor, mas é amor (1Jo 4,16) é exaltado pela plena doação de si. Uma capacidade infinita de amor só pode se manifestar adequadamente por meio de um gesto extremado. Fazer-se homem foi um rebaixamento ainda maior do que a cruz, pois morrer é normal para o homem, como freqüente é também a morte violenta e injusta; mas para Deus não é normal fazer-se homem. A distância a ser vencida é muito maior entre o Deus transcendente e o homem, do que entre este e a sua morte. Além do mais, a morte foi para Jesus um fato passageiro, enquanto a encarnação é realidade querida para sempre. Após ter inculcado de muitas maneiras, até bem radicais, a sua absoluta santidade — “Sou Deus e não um homem” (Os 11,9) —, ou seja, a sua transcendência, eis que de repente esse mesmo Deus se manifesta numa postura tranqüilamente contrária, Ele mesmo se identificando com a criatura pecadora. Marcou primeiramente com toda a clareza a sua santidade, para podermos de alguma formar entrever a medida da distância enorme que teve de superar para vir até nós, de quanto amor é capaz para que tal rebaixamento fosse feito de bom grado, sem constrangimento, feliz de poder declarar o seu amor. Tanto mais aparece a humilhação na encarnação, quanto mais incisiva tinha sido a insistência de Deus em nos convencer da sublimidade de seu ser. Judeus e muçulmanos não conseguem acompanhar o percurso de Jesus; nós, cristãos, somos embevecidos na admiração de tanto amor. Celebramos o seu percurso completo, para que a sua encarnação nos humanize ainda mais, e para que a sua morte e ressurreição nos levem para além daquilo que a morte em vão tenta impedir.