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novembro/2006 Editorial

Uma vida a serviço do povo de Deus

Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 27, de novembro de 2006
 
por Olívia Gurjão

Hoje queremos apenas agradecer a Deus os 20 anos de sacerdócio do nosso amado companheiro de caminhada

Domingo, 11h30. Mais um encontro com o padre João. Ele fala com simplicidade e profundidade de um Cristo vivo, presente no dia-a-dia da humanidade, presente no irmão que está ao lado, mas presente também no irmão que está distante.

Segunda-feira, 6h, o dia mal amanhece e ele está a postos no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Passa pelo pronto-socorro antes da troca do plantão. Quer saber da equipe noturna quem chegou, como estão os pacientes, trocar idéias, estar disponível. De lá, sobe para a UTI. Só depois vai para a capelania católica, uma sala pequena, mas acolhedora, no mesmo andar onde celebra as missas.

O dia está começando. Tem muitos amigos, pacientes, aguardando sua chegada. A rotina das visitas, da presença amiga, é então compartilhada com os agentes pastorais que compõem a equipe do padre João.

No Emílio Ribas, são sete andares a serem percorridos, fora o PS e o hospital-dia, que atende pacientes que necessitam ficar em observação enquanto recebem medicação. Um grande número de crianças ocupa os leitos do HD. A presença do padre João é recebida com muitas histórias e sorrisos. Ali está o amigo, que percebe o sofrimento, mas sabe resgatar a alegria.

No quarto andar fica a ala infantil. Bichinhos enfeitam as paredes do corredor e dos quartos. O local dispõe de uma brinquedoteca e contadores de histórias e voluntários alegram o dia da meninada.

A presença da Igreja, povo de Deus, é sentida em cada ação. Em 1997, padre João apadrinhou a Associação Viva e Deixe Viver e ajudou seu fundador, Valdir Cimino, a dar os primeiros passos como contador de histórias. Seu conselho foi bastante simples: tratar o paciente como gostaria de ser tratado. Mas prosseguiu, lembrou da importância de se trabalhar em equipe, conversar com médicos, enfermeiros, nutricionistas e assistentes sociais. “O objetivo de todos deve ser o bem-estar dos pacientes”, enfatiza.

Defensor da humanização das ações de saúde, padre João faz parte do Comitê de Ética em Pesquisas em Humanos, representando a comunidade. Ele é especialista em Bioética, dá pareceres em protocolos de pesquisa e constantemente é consultado pelo corpo clínico do hospital. Respeitado, é procurado para compartilhar idéias e opiniões. Mas é na força transformadora do amor, da necessidade que temos, todos, de nos sentir queridos, acolhidos, que busca seus subsídios para orientar seu rebanho.

João Inácio Mildner foi ordenado padre em 1986. Desde essa época, dedicou-se à área da saúde, trabalhando em hospitais do Rio Grande do Sul. Em 1991, veio para São Paulo fazer um curso de especialização e deu continuidade ao seu trabalho no Hospital das Clínicas, onde os camilianos coordenavam o serviço religioso das demais unidades de saúde do quarteirão (Emílio Ribas, Instituto da Criança e Incor).

Com o aumento do número de vítimas do vírus HIV, dom Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, designou-o para dedicar-se exclusivamente ao Emílio Ribas.

O vírus, então, era quase uma sentença de morte. O tempo para trabalhar a esperança e a finitude era breve. Pouco se conhecia sobre a doença e o grande desafio era romper a barreira da discriminação.

Padre João conquistou a confiança dos profissionais e dos pacientes. Virou referência para todos. O respeito à diversidade, a postura ética, solidária e respeitosa o credenciou a ser o responsável, designado pelo diretor, doutor Sebastião André de Felice, por todo o trabalho religioso desenvolvido no hospital.

O espaço de O Encontro é pequeno para contar sua rotina, que não se restringe a cinco dias no Emílio e dois na Paróquia da PUC, celebrando missas, casamentos e batizados. Ele é referência na Cúria para acompanhar líderes religiosos no Complexo HC e, ainda, tem o Projeto Esperança, que atende mais de 130 famílias soropositivas na Região Episcopal da Brasilândia. Mas... vamos deixar o assunto para outra edição. Hoje queremos apenas agradecer a Deus os 20 anos de sacerdócio do nosso amado companheiro de caminhada.