Natal,
o triunfo do esvaziamento
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 18,
de dezembro de 2005
por diácono Francisco de Assis Gonçalves
Certo dia, um professor universitário se aproximou de um santo monge e lhe pediu uma orientação espiritual. Para impressionar o monge, o homem deu um recital prolongado de todas as suas realizações — as suas várias pós-graduações, sua importância no meio universitário e suas muitas atividades como voluntário na comunidade.
À medida que o professor falava, o monge começou a encher uma xícara de chá com água. A água chegou até a borda da xícara, e o monge continuou vertendo, até que a água derramou sobre a mesa. O professor exclamou: “Pare, a xícara não conseguirá conter mais água!”. O monge, então, lhe respondeu: “Nem eu lhe posso ensinar qualquer coisa. Você agora está muito cheio de si mesmo. Como posso lhe falar de Deus a não ser que você primeiro esvazie sua xícara?”.
Ora, se quisermos ser discípulos de Jesus Cristo, devemos nos esvaziar de nosso orgulho, de nossa prepotência, para deixar que o espaço vazio seja ocupado por Deus. Interessante que Cristo, para se auto-comunicar com o pecador, se esvaziou, diminuiu-se, já que a realidade humana não agüentaria a grandeza divina. Deus tem que se esvaziar para que o homem possa se encher de amor. A maior obra de Deus, que é a Encarnação do Verbo, Jesus Cristo, destinada a iluminar e salvar o mundo inteiro, realiza-se na obscuridade, no silêncio, em meio às circunstâncias mais humildes de uma gruta. É um ato supremo de esvaziamento, de grandioso amor.
No idioma hebraico o amor de Deus é expresso como: “Rak'amim“, que quer dizer: “Víscera materna”. Para exprimir um intenso amor, o idioma bíblico sente a necessidade de recordar o amor de uma mulher, o amor de uma mãe que traz uma criança no útero. Ora, se nós estamos no útero de Jesus, e somos assim visceralmente amados, nós descobrimos que não estamos sós. E porque Deus é relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, nós descobrimos que nós também precisamos estar em relação com nossos irmãos, pois nós pertencemos às pessoas do amado. Essa é a Igreja; além de todas as aparências, é uma comunidade, o povo do amado.
Nesta relação com o outro, se impulsiona a missão de levar Jesus Cristo, o presente de Natal, para o gênero humano. Essa missão não deve se constituir num muro que se interpõe diante de nossos olhos como obstáculo. Um sábio chinês que viveu 700 anos a.C. exprimiu: “O Caminho está perto, mas os homens o procuram longe. O Caminho é simples, mas os homens amam as dificuldades. É necessário experimentar, abrir os olhos, ver o simples e o fácil do Caminho”. A palavra Caminho é tão sugestiva que Cristo a empregou como sua pessoa: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Este período é bem propício para refletirmos se estamos no Caminho, se estamos só olhando o Caminho na fresta do muro, ou se só enxergamos o muro.