Ut unum sint: que sejam um.
O irmão Roger
e a comunidade de Taizé
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 17,
de novembro de 2005
por Monique e Gerard Duchêne
A unidade de todos os que acreditam em Cristo tem sido, desde o Concílio Vaticano II, quando foi promulgado o decreto Unitatis Redintegratio, constante preocupação da Igreja. Tomaram inúmeras iniciativas neste sentido os papas João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, tendo este último publicado em 1995 a importante encíclica Ut unum sint. O papa Bento XVI, em sua primeira mensagem ao mundo, na missa celebrada logo após a sua eleição, declarou que estabelecia como a sua primeira tarefa trabalhar sem descanso para a reconstrução da unidade plena e visível de todos os discípulos de Cristo.
Neste espírito de busca da reconstrução da unidade perdida, Roger Schütz, filho de pastor calvinista suíço, fundou em 1940 na vila de Taizé, na França, uma comunidade destinada a viver um ecumenismo concreto, reunindo na oração pessoas de diversas confissões cristãs. Começada em plena guerra mundial, acolhia refugiados, entre eles muitos judeus que escondia da Gestapo, e tornou-se rapidamente um pólo de atração para os jovens que, com o passar dos anos, afluíram em número cada vez maior, conquistados pelo ideal de vida fraterna aliado à oração silenciosa aberta às dimensões do mundo. Os primeiros companheiros do irmão Roger, protestantes em sua maioria, abraçaram a vida monástica e, aos poucos, a eles se juntaram também católicos, tornando realidade o sonho ecumênico do fundador da Comunidade, atualmente com uma centena de religiosos, de 25 países. Os Irmãos, cuja regra se inspira na de São Francisco de Assis, fazem voto de celibato e pobreza, não aceitando doações de espécie alguma, vivendo apenas do seu trabalho. Desde o início, o irmão Roger procurou despertar nos jovens a preocupação pela justiça social e pela harmonia entre os povos, e hoje os Irmãos de Taizé estão presentes junto aos mais pobres e excluídos em vários países, inclusive o Brasil, em Alagoinhas, perto de Salvador, na Bahia. Além de centenas de milhares de jovens que de toda a parte acorrem a Taizé para refletir, orar e cantar, numerosos têm sido os homens de Igreja, entre eles o Papa João Paulo II, três arcebispos anglicanos, metropolitas ortodoxos, bispos luteranos e pastores de diversas denominações que passaram por lá para unir-se à oração da Comunidade.
Nas exéquias de João Paulo II, o protestante apaixonado pela Igreja que era o irmão Roger, com 90 anos e de cadeira de rodas, foi o primeiro a receber a Sagrada Comunhão das mãos do então cardeal Ratzinger. Ele mesmo afirmara que, influenciado pelo testemunho de sua avó, “encontrara a sua identidade própria de cristão, reconciliando em si mesmo a fé de suas origens com o mistério da fé católica, sem ruptura da comunhão com ninguém”.
Em 16 de agosto de 2005, quando rezava com mais de 2.500 jovens durante uma vigília ecumênica na Igreja da Reconciliação que construíra em Taizé, o irmão Roger Schütz foi assassinado por uma desequilibrada. Ao saber da morte do irmão Roger, o papa Bento XVI, após afirmar, emocionado, que “ele chegou à alegria eterna e nos exorta a sermos fiéis operários na Vinha do Senhor...”, contou que na véspera recebera dele uma carta em que afirmava estar “em estreita comunhão” com ele “e com quantos se reunirem em Colônia”, e almejava encontrá-lo em Roma “para lhe dizer o quanto a comunidade de Taizé deseja caminhar em comunhão com o Santo Padre”, acrescentando: “Recebendo, semana após semana, tantos jovens em Taizé, somos habitados pelo desejo de que as novas gerações descubram Cristo presente nesta única comunhão que é a Igreja”.
Uma das últimas frases do irmão Roger define bem o que ele mesmo viveu: “Quando a Igreja escuta, cura, reconcilia, ela revela o que nela há de mais luminoso: o límpido reflexo de um amor”.
Suas exéquias foram celebradas em Taizé, na presença de religiosos representantes das principais igrejas cristãs, chefes de Estado e de governo e, como sempre, inúmeros jovens, tendo o representante do Papa, o cardeal Walter Kasper, presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, terminado o seu pronunciamento com a seguinte oração: “Senhor, concede ao teu servo ver 'o céu aberto e Jesus de pé à direita do Pai', este Jesus que ele tanto amou e procurou durante toda a sua vida. Concede-lhe, no Espírito Santo, entrar na comunhão dos santos e na liturgia perfeita do céu, essa comunhão em Deus na qual, a cada dia, ele quis viver, cantar e orar. Concede-lhe contemplar o rosto do Pai eterno em toda a sua beleza, esse rosto no qual todo olhar de amor encontra a sua realização e no qual brilha a vida sem fim. E dá-nos a graça de continuar, segundo o seu exemplo e com esperança, no caminho da reconciliação, da comunhão e da paz, como antecipação do teu Reino eterno”.