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Sacra Música

Música: Deus fala ao homem
através do homem

Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 17, de novembro de 2005
 
por Solange Siquerolli
e Marlei Pirozelli Navalho

O projeto Sacra Música teve início em outubro de 1999 e, desde então, trouxe para a nossa paróquia grupos corais e instrumentais que nos brindaram com músicas das mais diversas épocas e estilos. Esse projeto nasceu com o desejo de nos educar a ouvir coisas que não sejam apenas do tipo “comercial”, porque a música, ao contrário do que imaginamos hoje, não é só um instrumento de entretenimento e lazer, mas uma forma de comunicação do Mistério. Pela música Deus fala ao homem, através do homem. Por isso, os concertos não se restringem ao que denominamos “Música Sacra”, porque, sendo instrumento de manifestação de Deus, toda a música é sagrada: Sacra Música.

É um privilégio que nossa paróquia comporte um projeto deste tipo.

Muitos grupos importantes já passaram por aqui e muitos nos procuram com o desejo de se apresentar. É uma pena que, tendo recebido este presente, nos empenhemos tão pouco em desfrutá-lo e em oferecê-lo aos amigos e parentes. A paróquia é nossa e convidar os amigos para conhecê-la por meio de um concerto de música é uma oportunidade de missão que pode parecer um pouco estranha mas, com certeza, oferecerá a cada um de nós e a nossos convidados momentos únicos, porque a música clássica muda o nosso coração, não porque é “mágica”, mas por causa do empenho de atenção que precisamos ter ao ouvi-la e que nos coloca em movimento e atentos ao que está diante de nós, nos educando não a uma distração — diversão, lazer... — mas a uma percepção daquele Algo que está além de todas as coisas e que responde ao nosso desejo de felicidade, de justiça, de realização e de beleza.

Propomos, abaixo, um texto de padre Luigi Giussani que relata como, ao ouvir uma ária de ópera, “entendeu que Deus existia”, descobrindo seu próprio coração.

“Ainda me lembro do instante e do estremecimento que o acompanhou, da comoção do instante no qual o fato da existência de Deus se tornou uma evidência carregada de significado para a minha vida. Estava no seminário e cursava o primeiro ano do colégio. No início da aula de canto o professor explicava alguma coisa sobre história da música, fazendo-nos, depois, escutar algum disco. Naquele dia o disco começou a girar e o canto de um tenor famosíssimo quebrou o silêncio. Com uma voz potente e cheia de vibração Tito Schipa começou a cantar uma ária do quarto ato da ópera La Favorita, de Donizetti: Spirto gentil, ne' sogni miei, brillasti un dì, ma ti perdei. Fuggi dal cor mentita speme, larve d'amor fuggite insieme (Espírito gentil, brilhaste nos meus sonhos um dia, mas te perdi. Fugiu do coração a falsa esperança, espectros de amor foram com ela).

Quando o fantástico tenor entoou Spirto gentil, ne' sogni miei..., ao vibrar da primeira nota intuí, comovido, que o que se chama Deus — quer dizer, o Destino inevitável para o qual nasce cada homem — é o termo da exigência de felicidade, aquela felicidade da qual o coração é insuprimível exigência. Assim que ouvi Spirto gentil, naquele preciso instante da minha vida, pela primeira vez eu entendi que Deus existia e, portanto, não podia existir nada, se não existisse o significado: que não poderia existir o coração se não houvesse a meta do coração. O coração do homem — o eu humano — é exigência de felicidade: a primeira palavra que o cristianismo diz é essa. Se não se parte disso, depois não se pode compreender o resto. Naquele primeiro ano do colégio, naquele timbre de voz, senti o calafrio de algo que faltava, não ao canto belíssimo da romanza de Donizetti, mas à minha vida. O desenvolvimento sucessivo da minha consciência religiosa foi completamente influenciado por aquela experiência do primeiro ano do colégio: aquele primeiro impacto foi a comunicação de um estremecimento inevitável, que fez verdadeiro o meu sujeito naquele instante, quer dizer, o meu eu, a minha pessoa, como sede de felicidade.”