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setembro/2005 Editorial

A presença do Senhor:
razão da esperança

Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 15, de setembro de 2005
 
por padre Vando Valentini, pároco

Diante da situação política que vivemos, somos chamados a dar um juízo crítico para manter vivas as razões de nossa esperança. Para isso, proponho trechos de um artigo de dom Filippo Santoro, bispo de Petrópolis, que foi publicado no Jornal do Brasil dia 8/8/2005.

“As notícias destes meses sobre a corrupção no Brasil estão se tornando rotina e nasce a grande suspeita de que tudo seja encoberto e não dê em nada. O fato que está suscitando escândalo, porém, não é apenas o espetáculo da corrupção, mas que essa corrupção [...] investe contra o partido que tinha feito da ética a sua bandeira. Ao longo dos anos foi construída uma ideologia que reconhecia no PT o instrumento do sujeito histórico da libertação do Brasil, a partir dos pobres.

[...] Uma parte da Igreja apoiou esse projeto ideológico que se baseava na luta dos pobres, na colaboração de intelectuais radicais e no mundo do sindicato.

[...] Dois anos de poder revelaram que muitos dos líderes deste partido que alcançou o governo do País não são puros e caíram nos mesmos erros do poder burguês que violentamente atacavam. A ética foi violada de forma espantosa. Na realidade, todo partido e todas as pessoas têm em si essa ferida profunda do mal e ninguém pode se dizer 'sem pecado'. Cada partido faz o que pode, tendo presentes os ideais que o inspiram. O que causa espanto é a autoproclamação do partido da ética, dos puros. Foi declarado constantemente 'não podemos errar'. Nas coisas humanas, o erro é uma possibilidade cotidiana, que não deve ser justificada, mas que temos de admitir.

Caiu a bandeira da ética do PT; mas de forma alguma caiu a bandeira da esperança, que depende do valor indestrutível da consciência pessoal, aberta ao bem e contrária ao mal. Especificamente na experiência cristã, a esperança depende da presença no meio de nós de Cristo Libertador, vivo na comunhão de seus amigos, e que é uma novidade também em relação às legítimas batalhas dos pobres. Para a ação política dos católicos, é decisiva a orientação dada pela doutrina social da Igreja, e esta escolhe os partidos que mais respeitam e oferecem a possibilidade de traduzir a sua identidade em ações concretas, visando o bem-comum e o amor preferencial, ainda que não exclusivo, pelos pobres. Por isso, é legítimo o pluralismo na ação política. Toda tentativa de presença política é sempre uma tradução limitada e parcial da riqueza da mensagem do evangelho. Nas circunstâncias presentes, é tarefa de toda a sociedade civil e especificamente da Igreja Católica [...] colocar a devida ênfase na questão ética, não apenas recolhendo o grito de indignação que sobe da sociedade, mas indicando os fundamentos verdadeiros da ética. Se não existem pontos firmes de referência para a consciência moral, não posso dizer que o roubo, mensalão e a corrupção são errados? O alimento primeiro da crise ética, que alcançou proporções espantosas, é a 'ditadura do relativismo' da qual fala Bento XVI.

A esperança continua viva por força do valor da consciência moral que está aberta ao infinito, ao absoluto que constitui o critério de juízo para as nossas ações e para qualquer organização política. Em muitas pessoas essa esperança está muito viva. Como esquecer o imenso trabalho de entidades civis e religiosas, das comunidades, das paróquias, dos movimentos eclesiais, e de tantas pessoas de reta consciência, de líderes comunitários e de pessoas simples que, a partir de uma fé viva, constróem pequenas e grandes obras educativas e de solidariedade?”

É fundamental que diante de todos saibamos “dar as razões de nossa esperança”.