A Bíblia e o
nosso momento político
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 15,
de setembro de 2005
por Aníbal Carneiro
e Maria de Fátima
Onde estarão guardadas as nossas Bíblias? Sim, porque com certeza existem muitas delas por aí. Expostas nas vitrines das livrarias. Esquecidas nas prateleiras das nossas estantes. Socadas no fundo de uma gaveta. Jogadas por cima de um móvel qualquer. E em nossas mãos, será que elas já estiveram? E sob nossos olhos terão se demorado? Por que, e para quem a Bíblia foi escrita? Será que lhe estamos dando o devido valor?
Nela está contida a “Mensagem” de Deus. Ela encerra toda a Promessa realizada. Paulo resume na primeira carta aos Tessalonicentes: “Acolhei a palavra de Deus não como palavra humana, mas como mensagem de Deus, o que ela é, em verdade” (1Ts 2,13). O Livro inspirado por Deus. Tão antigo quanto atual. Tão amado quão desrespeitado em tantos juramentos em vão. Tão querido quão rejeitado por aqueles que se proclamam defensores do bem maior. Será que os homens esqueceram-se do que ela veio comunicar, ou nunca lhe deram uma resposta?
Ou será que somos apenas escribas e fariseus, sepulcros caiados? Ou ainda, raça de víboras, que dizemos ter dentro de nós. Pai Abraão, ou Jesus Cristo, ou ainda o Pai Nosso que está no Céu, bem longe de ver nossas iniqüidades, nossos egoísmos que nos levam a querer sempre mais, esquecendo os que nos cercam?
Será que nossos dirigentes enxergam sua pequenez diante de Deus? Pequenez que Salomão humildemente reconheceu quando orou pedindo “um coração sábio, capaz de ajudar o povo a discernir entre o bem e o mal; pois sem isto, quem poderia julgá-los?” e justificou: “...pois não passo de um adolescente, e não sei como me conduzir”. Será que nossos dirigentes julgam que apenas o receio pela sua idade fez Salomão pedir a Deus a sabedoria e não sua fé e certeza de que com Ele e sua palavra se capacitaria bem mais na sua administração? Ou será que falta aos nossos dirigentes acreditar nas palavras de Jesus quando disse que nada há de oculto que um dia não venha à luz... Parece que aos nossos governantes pouco importa ainda o que está sendo feito. Mas apenas que não venha à tona o muito que não deve ser apresentado. Será que nossa ganância de poder também não nos leva como a mãe dos filhos de Zebedeu a querer os primeiros lugares no reino, quando não nos dispomos a beber o cálice do serviço, do desprendimento, da caridade, do baixar-se para enxergar quem se arrasta aos nossos pés, porque não consegue sequer erguer os olhos para nos alcançar?
Vemos hoje, nos nossos representantes, propostas de trabalhar em prol da sociedade possível e imaginária para satisfazer seus interesses? Não se incomodando com os meios usados para tal?
Pobre Bíblia tão esquecida, principalmente nos próximos dias passados, na Terra de Santa Cruz. Que paradoxo entre tuas páginas e as atualmente vividas na nossa história! Já não importam os instrumentos usados para alcançar os objetivos. Já não têm nenhuma relevância, se os tesouros usurpados deixarão vazia alguma mesa. É que estamos muito esquecidos de que a Bíblia não é só para ser lida como diletantismo. A Bíblia é para ser degustada como o bom vinho. Saboreada como um manjar divino. Abservida como alimento para nossa vida. A Bíblia é para ser vivida. Então eu me pergunto: nem mesmo depois da Promessa cumprida, da Vítima imolada, do cálice do amargor ser bebido, do Filho ser levantado entre o Céu e a terra, do Pai ser glorificado, nem mesmo depois de dois mil anos da Palavra realizada, do Verbo se fazer carne e habitar entre nós, nem mesmo depois de tanto Amor, esperar ser amado, o homem mudou?
São Paulo, apaixonado por seu tesouro, que é Jesus, diz: “Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo a fim de ganhar Cristo e ser encontrado unido a Ele” (Fl 3,8-9). Quando encontraremos Cristo para então nos contentarmos sem a necessidade de alimentar nossa satisfação na ganância de poder e de riquezas?
Às vezes penso se o Poeta tem razão quando diz:
Prometeste voltar, não voltes, Cristo!
Serás preso de novo às horas mudas
Depois de novos e divinos atos.
Porque na terra deu-se apenas isto:
Multiplicou-se o número de Judas,
E vai crescendo a prole de Pilatos.
Mas, não. Não podemos perder a esperança, não devemos nos afogar em mágoas. Porque enquanto houver uma família que se reúne para rezar a Palavra e render graças; enquanto houver brilho no olhar de um casal que se ama, e o sorriso no rosto de uma criança, então haverá esperança. Porque na criança a vida recomeça; na família, o mundo se torna novo; no amor, o sonho se transforma em realidade. Assim, a Bíblia sempre renascerá para nos levar a Deus.
E eu Te peço: ó Cristo, não deixes de voltar!!! Mas, por favor, não tardes muito!