Compêndio da Doutrina
Social da Igreja
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 14,
de agosto de 2005
por padre Vando Valentini, pároco
Por que nós, católicos, obedecemos ao Papa?
Nestes dias, veio do Vaticano, a pedido do papa Bento XVI, um cardeal presidente de um dos Dicastérios Romanos (um ministro) para lançar no Brasil o Compêndio da Doutrina Social da Igreja.
Por que a Igreja e o Papa estão preocupados com isso?
A resposta é simples e decisiva: o caminho de Cristo, portanto o caminho que a Igreja percorre, é o homem. Cristo veio responder à situação do homem concreto. Sendo que o homem vive no meio das contradições de uma sociedade, o anúncio de Cristo necessariamente levará em conta a sua situação social.
Mas qual é a originalidade do cristianismo na abordagem do problema social? O que é que diferencia esta proposta, por exemplo, da maneira de enfrentar o problema social que é o típica da conhecida Doutrina Marxista?
Ao ler o Compêndio, identificamos logo a diferença entre essas duas posturas: o ponto chave de toda a reflexão é o Princípio Personalista (cf., da p. 70 à p. 100).
O que quer dizer Princípio Personalista? Que o cuidado principal da Igreja ao enfrentar o problema social é com a pessoa humana, um cuidado com a liberdade, para que cada homem possa se colocar de maneira verdadeira diante de Deus, seu criador.
No marxismo, a preocupação é resolver o problema da estrutura, isto é, o problema social; e o instrumento para tanto é a política. O homem individual virá somente num secundo momento.
Para compreender bem esse ponto, que é fundamental, é útil olhar para uma experiência concreta que já conhecemos. Trata-se da Associação dos Trabalhadores Sem-Terra de São Paulo. É o movimento popular guiado pelos nossos amigos Cleuza e Marcos Zerbini, que organizam nosso povo para construir sua casa própria.
Um dia, dona Cleuza disse: “Parece que o nosso movimento fracassou. Se, por um lado, o povo consegue construir sua casa (nisso, o movimento não fracassou), por outro lado, as pessoas, depois de construírem suas casas, ainda brigam de faca entre vizinhos”. O movimento resolveu o problema social, mas não tocou no problema humano da pessoa. Por isso, a mesma dona Cleuza continuava: “Agora compreendi que não apenas devemos construir casas, mas devemos construir a comunidade. O nosso movimento deve levar as pessoas a conhecerem Jesus Cristo, pois somente Cristo cria a comunidade e responde plenamente ao problema das pessoas”.
Aí está explicado, na prática, o Princípio Personalista.
Hoje, o movimento popular que a Cleuza e o Marcos Zerbini lideram mudou. Eles querem construir a Igreja, a comunidade cristã, e construir a casa é um instrumento para isso.
A Doutrina Social da Igreja ajuda a encarar as questões sociais focalizando o ponto certo. O valor fundamental é a pessoa em sua relação com o Senhor, e o valor de um movimento social está no fato de construir tudo começando pela pessoa, pela sua liberdade, pela sua felicidade.