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Bento XVI

Habemus Papam

Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 13, de junho de 2005
 
por G. Duchêne

Após o término das comoventes exéquias do muito amado papa João Paulo II, um conclave surpreendentemente curto elegeu um novo Papa, o cardeal alemão Joseph Ratzinger, o segundo papa não italiano em quatro séculos, que adotou o nome de Bento XVI.

Joseph Ratzinger nasceu e foi batizado numa pequena cidade da Baviera no dia 16 de abril de 1927, um Sábado Santo, o que mais tarde lhe fez dizer que sua vida esteve sempre imersa no mistério pascal. Sua família, profundamente católica, se opunha ao nazismo, o que lhe causou muitos problemas. Como era obrigatório na época, para todos os jovens, pertenceu durante algum tempo às Juventudes Hitleristas; incorporado ao exército, serviu numa unidade de defesa antiaérea, da qual acabou desertando no final da guerra, quando voltou ao seminário em que entrera em 1939. Lá estudou com o grande teólogo e futuro cardeal Hans Urs von Balthasar e foi ordenado sacerdote, ao lado de seu irmão Georg, em 29 de junho de 1951. Doutorou-se em teologia pela Universidade de Munique e publicou suas primeiras obras sobre a doutrina de Santo Agostinho e a teologia de São Boaventura.

A partir de 1959, foi titular da cadeira de teologia fundamental na Universidade de Bonn, publicando mais de quarenta livros. Participou do Concílio Vaticano II como conselheiro teológico do cardeal Frings, de Colônia, conhecido como reformista. Em 1963, ensinava teologia dogmática na Universidade de Münster, e, em 1966, na célebre Universidade de Tübingen, a convite do conhecido teólogo Hans Küng, cujas opiniões heterodoxas provocariam mais tarde uma ruptura entre eles. Aí conheceu também um estudante brasileiro, Leonardo Boff, a quem estimulou na preparação de sua tese de doutorado, financiando sua publicação. Mais tarde, teve de refutar as opiniões que Boff manifestou num livro, tentando levá-lo a reconhecer seus erros doutrinários em longa entrevista no Vaticano, sendo finalmente obrigado a condená-lo a um “silêncio obsequioso” de um ano.

Em 1972, fundou com os teólogos Hans Urs von Balthasar e Henri De Lubac a revista Communio, de grande repercussão teológica, e em 24 de maio de 1977 foi nomeado por Paulo VI arcebispo de Munique, escolhendo como lema a palavra de São Paulo “Caminhar na Verdade”. No dia 27 de junho do mesmo ano, foi nomeado cardeal por ocasião do último consistório de Paulo VI. Em 23 de setembro de 1978, recebeu em Munique o cardeal Karol Wojtyla, que, com uma delegação polonesa, vinha celebrar a reconciliação entre a Polônia e a Alemanha. Um mês depois, em 16 de outubro de 1978, o cardeal Wojtyla era eleito Papa, com os votos dos cardeais alemães. João Paulo II logo chamou o cardeal Ratzinger a Roma, confiando-lhe o posto-chave de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cargo que ocupou até a morte de João Paulo II, em 2 de abril de 2005. Era o decano do Colégio Cardinalício, cabendo-lhe presidir as exéquias do papa falecido, quando, em memorável e profunda homilia, proclamou: “O Papa está hoje à janela da casa do Pai, donde nos vê e nos abençoa”.

Foi ele, também, que celebrou no início do conclave a Missa pro eligendo Papa, em que indicou com clareza e profundidade os principais desafios que se apresentariam ao novo Papa. Essa homilia, muito aplaudida, provavelmente influenciou os cardeais em sua decisão rápida e por larga maioria, dando um extraordinário testemunho de unidade da Igreja.

A escolha do nome Bento XVI foi uma homenagem ao papa Bento XV, que durante a Primeira Guerra Mundial lutou incansavelmente pela paz e pela proteção das populações civis, e ao grande São Bento, reformador da Igreja e padroeiro da Europa.