O sinal da Ressurreição,
da vitória de Cristo,
é o povo cristão
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 12,
de maio de 2005
por padre Vando Valentini, pároco
Nos dias que se seguiram à morte do papa João Paulo II um fato novo ficou evidente: o povo cristão se reuniu em volta dele. Os milhões de peregrinos em Roma, mas também todos os poderosos da terra, no dia do enterro. A presença de um povo, a unidade de um povo se impôs como um fato inesperado. Nunca aconteceu uma coisa como essa. Estamos vivendo um momento único, um milagre está acontecendo diante dos nossos olhos: a vida e a morte do Papa encheram o mundo com a humanidade de Cristo.
“Abri as portas a Cristo.” Com essa frase o Papa João Paulo II começou seu pontificado e essa frase já diz tudo. Não tenhais mais medo, porque, ao abrir as portas de sua vida a Cristo, Ele virá para realizar plenamente o desejo de seu coração. Para este papa a única coisa a fazer é abrir-se a Cristo.
O Papa foi um homem vibrante em sua intensidade de humanidade. Quando se divertia com os jovens, já velho e doente, dizia a eles o ditado polonês: quem fica perto dos jovens fica jovem.
Nunca deixou de enfrentar as mais difíceis paradas da sua história.
Fez experiência da ditadura comunista e agiu eficazmente para ajudar a fechar esse triste capítulo da história. Não teve medo de encontrar-se, por duas vezes, com Gorbatchov. Foi encontrar Pinochet e Fidel Castro esperando um processo democrático. Foi para Beirute em momentos dramáticos. Enfrentou a máfia siciliana e a possível guerra entre Argentina e Chile, construindo a paz. Ele, que experimentou a desgraça da Segunda Guerra Mundial, foi terminantemente contrário às duas guerras contra o Iraque. “Não se constrói a paz fazendo a guerra.” Foi o primeiro Papa a visitar uma sinagoga e também uma mesquita. Construiu o diálogo com todas as religiões e buscou, com incansável esforço, a unidade dos cristãos.
Não teve medo de se expor demasiadamente e assim levou um tiro. Mas ele sabia que Nossa Senhora cuidaria dele. Perdoou seu agressor. Ensinou-nos a perdoar e a pedir perdão e, assim, amar mais a verdade do que uma pretensa perfeição.
Por causa do atentado que sofreu, sua saúde piorou muito. Toda a sua força física se foi. Assim veio à tona sua verdadeira força: a força que um Outro, o próprio Cristo lhe dava e dessa forma nos falou de Cristo também por meio de sua humanidade ferida e doente. Chegou a babar e finalmente ao último grito sem voz que os jornais flagraram. Em toda essa fragilidade mostrou o valor também dessas circunstâncias adversas: oferecer-se em sacrifício como e com Cristo, por todos nós. Respondeu ao drama de Terri Schiavo com sua própria experiência de homem incapaz de controlar seu pobre corpo, mas sempre disposto a oferecer a Cristo sua dor. Com ele aprendemos a viver, ser felizes, sofrer e até morrer: tudo com significado, com Cristo.
Ficou perto dos pobres, das crianças, dos velhos e dos doentes: os marginalizados são amados como Cristo os amou. Olhando para ele, todo homem recupera seu valor e sua dignidade.
Com ele o cristianismo voltou a ser uma proposta humanamente fascinante e significativa para o homem de hoje. Num momento em que estava se evidenciando uma crise da fé católica, ele pôs a Igreja no centro da experiência humana. Voltou a unir a fé com a vida. Aproximou a razão e a fé. Reconciliou a ciência com a religião, sem ter vergonha de sua fé num momento em que a razão mostrava toda a sua força.
Enfrentou e mostrou como é possível, pela caridade, derrotar a cultura do nada. Apontou esse caminho para os jovens que sempre o reconheceram como um pai e mestre querido.
Obrigado, João Paulo II. Não nos deixe sozinhos, interceda para que o novo papa, Bento XVI, continue com firmeza esse mesmo caminho.