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O tempo presente

Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 7, de novembro de 2004
 
por Magda M. de Oliveira David

A cruz é o símbolo e o sinal do cristão, porque nela se consumou a Redenção do mundo. O senhor empregou a expressão “tomar a cruz” para indicar qual deveria ser a atitude dos seus discípulos ante a dor e a contradição. A dor, nas suas diferentes manifestações, é uma realidade universal. É como se a dor derivasse da própria natureza humana. No entanto, a fé nos ensina que o sofrimento penetrou no mundo pelo pecado. Deus tinha preservado o homem da dor por um ato de bondade infinita. Mas o pecado de Adão, transmitido aos seus descendentes, alterou os planos divinos e entraram no mundo a dor e a morte. A vontade de Deus, o seu desejo prazeroso, é que sejamos felizes. Deus não quer, nem deseja, que soframos os golpes, aleatórios ou não, desta vida. Mas Ele permite que eles aconteçam, porque, se agisse de outro modo, bloquearia nossa natureza e condição humana. Filhos de um Deus de misericórdia, podemos, na vida, vencer a angústia da dor e da morte, pois o Senhor assumiu o sofrimento, não só por meio das privações normais de qualquer ser humano (passou fome e sede, cansou-se no trabalho...), como sobretudo da sua Paixão e Morte na cruz e, assim, converteu as dores e penas desta vida num bem imenso. Além disso, todos nós somos chamados, mediante o sofrimento, a completar no nosso corpo a Paixão de Jesus. A fé nessa participação misteriosa da Cruz de Cristo dá-nos a certeza interior de que o homem que sofre completa o que falta aos sofrimentos de Cristo, e de que, na dimensão espiritual da obra da Redenção, serve, como Cristo, para a salvação dos seus irmãos e irmãs. Está nas nossas mãos colaborarmos generosamente com Cristo mediante a aceitação amorosa de todos os tipos de dor que Ele permite para a nossa santificação pessoal e de toda a Igreja. A dor ganha então todo o seu sentido e converte-nos em verdadeiros colaboradores do Senhor na obra da salvação das almas: completa-se a obra da nossa santificação.

A nossa união com Jesus Cristo neste mundo torna a vida terrena uma preparação para a vida do céu. Nossa vida na terra é um período de formação, no qual devemos aproveitar cada dia como se fosse o único, sabendo que nunca mais se repetirá. Não deixemos escapar estes dias que nos faltam para chegarmos ao fim do caminho. Devemos sempre nos lembrar de vivermos desprendidos dos bens que usamos, porque dentro de um tempo teremos de deixá-los; levaremos conosco, para sempre, somente o mérito das nossas boas obras. A incerteza do momento do nosso encontro definitivo com Deus anima-nos a estar vigilantes para podermos nos apresentar diante do Senhor com as mãos cheias de serviços prestados para a construção do Seu Reino.

Quando uma vida chega ao seu fim, não podemos pensar só numa vela que se consumiu, mas numa tapeçaria que se acabou de tecer. Tapeçaria que nós vemos pelo avesso, cheia de fios soltos e em que só se pode observar uma figura sem contornos. O nosso Pai-Deus irá contemplá-la pelo lado certo, e sorrirá e ficará feliz com a obra acabada, resultado de termos aproveitado bem o tempo todos os dias, hora a hora, minuto a minuto.

Cristo nos espera com os braços abertos. A pessoa que se decide por Cristo encontrará, por causa exatamente da morte e ressurreição de Jesus, o pleno amor e a infinita felicidade.

A vitória de Cristo sobre a morte nos faz com ele reviver. Eu sou — afirmou o Mestre — a ressurreição e a vida; o que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá eternamente. O dia da nossa morte passa a ser o dia do nosso nascimento para uma nova Vida, para uma felicidade sem fim, o dia em que radiantes poderemos contemplar o rosto de Jesus face a face. Então nos lembraremos da verdade que nos recorda o Apocalipse: “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor. De hoje em diante, diz o Espírito, que descansem dos seus trabalhos, porque suas obras os acompanham” (Ap 14,13).