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outubro/2004 Editorial

A originalidade do cristianismo

Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 6, de outubro de 2004
 
por padre Vando Valentini, pároco

A violência e o perdão

Diante da violência, os cristãos são chamados a testemunhar o perdão e a reconciliação.

A violência parece ser a única dominadora de nosso mundo: começando pela grande tragédia do ataque do terrorismo em Ossétia, com a morte de um grande número de crianças, mas passando também por todos os mortos na Terra Santa, tanto judeus quanto palestinos, e, por fim, pelas vítimas da violência no cotidiano de São Paulo (os mendigos das chacinas destes dias, como tantas vítimas de assaltos). Mas não é verdade. Tudo isso exige que os cristãos testemunhem que há uma possibilidade da novidade e de vida para o homem e que isso pode nascer da experiência do perdão.

Mas como é possível perdoar? O homem sozinho nem consegue imaginar o perdão. Perdoar não é apenas esquecer o mal praticado, mas é muito mais, é transformar esse mal em bem. Perdoar é transformar o mal em ocasião para uma construção, superando a passividade e o negativo. Essa possibilidade de positividade em todas as circunstâncias da vida só pode vir de Deus, que, diante da fragilidade do homem, toma a iniciativa e vem ao encontro do homem pecador tornando-se Ele mesmo homem, e realizando esse milagre do perdão. Nestes dias, a liturgia da festa de São Mateus relembra que Jesus “veio para os pecadores e não para os justos, [...] para resgatar o que estava perdido”, Ele nos salva, nos muda com a sua misericórdia. Daqui nasce a possibilidade do perdão. Se a pessoa fizer a experiência de ser perdoada, aos poucos pode começar a nascer a capacidade de perdoar.

A justiça e a igualdade

Vale a pena fazer também uma outra observação. No mês de setembro realizou-se um Encontro Internacional sobre o pensamento da filósofa Edith Stein (de origem judaica, convertida ao cristianismo, essa monja carmelita foi morta pelo nazismo nas câmaras de gás e proclamada santa pelo Papa João Paulo II). Ao comentar o tema da Justiça e da Igualdade, a pensadora analisa a nossa cultura e observa que todos os povos têm uma noção de Justiça e Igualdade, mas só o cristianismo chega a dizer “todos os homens são iguais e seus direitos devem ser preservados”. Por exemplo, para a tradição islâmica, quem tem direitos iguais são os fiéis do islã, os outros são inimigos do islã; os inimigos devem ser tratados como inimigos e, se for o caso, podem ser mortos. Daí se origina a justificação de tanta violência do terrorismo. Mesmo que a religião islâmica tenha seu valor objetivo, não se pode negar que carrega consigo esse limite. Com isso, quer-se reafirmar a riqueza da tradição católica e a responsabilidade que daí nasce de anunciar a todos os homens a Boa Nova do Cristo.

Diante dos 100 anos da coroação
de Nossa Senhora Aparecida

Neste mês de outubro, que é o mês do rosário, peçamos de maneira especial a Nossa Senhora do Rosário que nos conceda, antes de tudo, a consciência da grande graça que nos foi dada pelo fato de termos encontrado com Cristo. Porque cada um de nós não é melhor do que tantos outros que não O encontraram. Foi o abraço de Cristo que nos deu uma outra consistência e nos torna capazes de olhar para todas as coisas com positividade. Peçamos também que Nossa Senhora nos ajude para que nos tornemos testemunhas vivas em nossos ambientes de trabalho, homens capazes de perdão e de acolhida, capazes de testemunhar uma experiência humana verdadeira.