Ser cristão hoje
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 5,
de setembro de 2004
por padre Vando Valentini, pároco
Testemunhar Cristo no cotidiano
Queria começar esta minha reflexão partindo da vocação do leigo no mundo de hoje. Se eu não tivesse encontrado Cristo no meu cotidiano de estudante, na escola, por meio de alguns amigos, nunca teria voltado para a Igreja. Não ia mais à Igreja, nunca gostei muito de rezar nem de fazer grandes meditações; o meu negócio sempre foram os problemas concretos da vida e o cotidiano. Isso talvez tenha me levado a viver de uma maneira bastante superficial e mecânica. Mas essa é a circunstância em que vive a maioria dos jovens de hoje. Para que entrasse na minha vida algo de grande, algo de novo, algo de verdadeiramente humano, foi necessário encontrar entre amigos da minha mesma escola gente que vivia algo de grande. Esse é o ponto chave. Uma amizade dentro do cotidiano que abre um horizonte novo: o de Cristo.
Marcou-me muito o livrinho sobre a história do Edimar (aliás, quem ainda não leu e meditou esse livrinho deveria fazê-lo o quanto antes — procure na casa paroquial), um moleque que seria um bandido como quase todos os meninos de sua escola se não tivesse encontrado duas professoras, que faziam seu trabalho por causa de Jesus Cristo e que dentro de uma simples amizade abriram um horizonte novo para ele. Hoje estamos querendo que Edimar se torne um modelo para todos nós. Porque encontrou Cristo na sua vida e respondeu decididamente ao seu chamado entregando a vida por causa dele.
Aquilo de que mais a Igreja precisa hoje é de leigos engajados, isto é, de gente que viva no seu cotidiano, no seu trabalho, a fé, e que seja proposta de Cristo dentro de uma amizade com aqueles que encontra.
Os católicos e as eleições
Outra coisa que me preocupa neste tempo é que estamos no mês de setembro e que no mês que vem haverá eleições para vereadores e prefeito. E nós, como católicos, o que estamos fazendo?
Recentemente houve a consulta para escolha do Reitor da PUC e todos nós, inclusive os padres, participamos ativamente desse evento: trata-se da nossa universidade, onde os nossos jovens aprendem tudo; não poderíamos deixar de exercer a nossa responsabilidade diante desse fato.
Quando se fala em eleições, todos são chamados a participar, e essa é uma tarefa específica dos leigos. De fato, uma opção política é uma opção provisória: trata-se de escolher alguns representantes que governem a “Res Publica” de forma tal que seja um instrumento de construção de todo o nosso povo. Certamente já passou a fase em que se acreditava que quem poderia resolver os problemas do Brasil fosse um governo eleito democraticamente. Quem pode resolver isso é somente o próprio povo organizado, que, agindo na sociedade a partir de seu ideal, constantemente cobre, inclusive dos políticos, que a dignidade do ser humano seja respeitada, para que sua criatividade econômica e social seja valorizada e o serviço da solidariedade seja sempre mais incrementado.
Vocês poderiam se perguntar: o que tem a ver o tema da vocação do leigo com as eleições? Fica evidente a resposta: aqui, os leigos tem de entrar com liberdade e criatividade. Não é tarefa da Igreja, como instituição, entrar no debate político. A função da Igreja é anunciar Jesus Cristo e manter viva a fé. Mas a Igreja pode que os leigos assumam sua responsabilidade diante deste momento, das eleições, porque somos chamados a defender também em nível político e social uma série de valores e de práticas que nascem dentro da nossa vida Cristã. Neste sentido, a Igreja nos dá como referencial para a ação política seu Ensinamento Social.
O princípio de subsidiariedade
Muitas são as encíclicas e os documentos dos papas sobre a sociedade e a política. Aqui, queremos apenas ressaltar um que nos parece de fundamental importância: trata-se do “Princípio de Subsidiariedade”. Esse princípio, em união com o “Princípio de Solidariedade”, norteia grande parte das indicações que a Igreja propõe ao cristão.
O princípio de subsidiariedade diz o seguinte: na vida de um povo, deve-se afirmar acima de tudo o valor da pessoa humana e a sua capacidade de criar iniciativas e de se reunir em grupos para responder a suas necessidades, gerando iniciativas sociais (para não complicar muito, pensem em como nasceu a nossa creche: a Aprocima); portanto, a função do Estado, com suas políticas públicas, é intervir valorizando o que a população organizada já está construindo e atuar diretamente apenas onde o povo organizado não está conseguindo agir. Isso quer dizer que o Estado deve agir em função subsidiária à ação do povo organizado. Toda uma tradição de escravidão e de exploração dos mais fracos, na qual tristemente se enxertou muito bem uma mais recente tradição estatista (o Estado deve resolver os problemas do povo), nos leva a olhar para quem governa o Estado como sendo o culpado de todos os erros e também aquele que pode resolver os nossos problemas. Mas as dificuldades, por exemplo, do governo Lula em levar adiante uma “ação política realmente alternativa” já terá tirado todas as dúvidas sobre esse ponto. Não depende apenas de um governo resolver os problemas de uma nação, mas sobretudo do povo organizado. O que não nos leva, no entanto, a minimizar a ação de um governo que seja adequado e capaz de levar adiante suas tarefas. Por isso, devemos escolher muito bem os políticos que nos representam, para que atuem realmente em função do “bem comum”. Ao mesmo tempo, essa reflexão nos leva a valorizar políticos que de fato se comprometam a privilegiar o princípio de subsidiariedade e, a partir disso, sobretudo na ação política local (na prefeitura), apóiem nossas creches, nossas escolas e até nossas universidades, que desenvolvem de maneira muito digna um serviço verdadeiro à população. A função da ação pública é incentivar essas iniciativas e não apenas as nossas, mas aquelas que nascem do rico tecido social brasileiro, vigiando o uso do dinheiro público, a qualidade do atendimento e o serviço solidário a todas as camadas sociais. A ação do Estado não deve ser genérica e nunca deve substituir a ação do povo organizado.
Devemos eleger políticos que se comprometam concretamente com essa visão humanista da ação dos poderes públicos.