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agosto/2004 Editorial

A vida como vocação:
relacionamento com Cristo hoje

Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 4, de agosto de 2004
 
por padre Vando Valentini, pároco

O que é a vocação? Na nossa cultura, costumamos confundir vocação com aptidão. Nessa perspectiva, a vocação seria uma capacidade nossa, uma potencialidade que descobrimos em nós. É impressionante o desvirtuamento das palavras da tradição cristã realizado pela cultura moderna. Pois, para um cristão, a vocação é o “chamado de Deus”. Quer dizer que é algo que vem de fora de nós, algo a que somos chamados a responder (daqui nasce a palavra responsabilidade). Para compreender plenamente o tema da vocação, é útil pensar em Nossa Senhora. Ela disse sim ao chamado de Deus, acolheu a proposta que um Outro lhe fez, seguiu um horizonte inesperado e infinito na vida dela e se tornou a Mãe do Redentor.

E nós, como é que fica cada um de nós? Será que só Maria ou os profetas têm uma vocação?

Todo homem tem uma vocação. Cristo nos chama para que realizemos o maravilhoso plano de amor que ele preparou para cada um de nós e para o mundo inteiro. De fato, quando se fala da vocação se fala do caminho de cada um para realizar a sua FELICIDADE. Quem é que não quer ser feliz? Deus, que nos fez a cada um segundo um desígnio maravilhoso, é o único que sabe qual é o caminho da nossa felicidade. Mas Deus é Mistério para nós, é algo que está muito além da nossa compreensão. Mesmo assim, a nossa vida, a nossa felicidade depende dEle. Nossa vida depende de algo ou Alguém que nós não podemos ver, conceber ou medir, algo que para nós é Mistério. A vocação é o nosso relacionamento com o Mistério. Trata-se, então, de estarmos abertos e disponíveis ao chamado do Mistério, de dizermos o nosso sim àquilo que Ele nos pede. Mas como é que nós fazemos, como é que eu faço para saber o que Deus, o Mistério me pede? É necessário estarmos atentos aos fatos, às circunstâncias da nossa vida, porque ele nos fala por meio desses fatos. A coisa mais importante, porém, é uma outra: trata-se de abrir o nosso coração ao Mistério, trata-se de entrar no “mundo dEle”, o mundo misterioso definido pelo Espírito de Deus. O homem não consegue entrar sozinho no “mundo de Deus”; é o próprio mistério de Deus que vem ao seu encontro por meio de Maria, na pessoa de Jesus Cristo, e leva a criatura a participar desse “outro mundo”. Evidentemente, não se trata de um “outro mundo” diferente do nosso cotidiano. Trata-se de uma maneira totalmente nova de viver e perceber “este mundo” no qual vivemos hoje.

Depois da festa de Pentecostes, vive-se na Igreja o tempo do Espírito Santo, o tempo em que o “mundo de Deus” se comunica ao nosso pelo dom de Seu espírito.

1. O desejo lançado na oração

Voltando ao tema da vocação, para compreender o que Deus nos pede precisamos invocar o Seu espírito, para que possa nos levar a viver segundo Deus. A oração, a invocação do Espírito Santo é, portanto, fundamental para compreender a nossa vocação. Quem não reza fica mergulhado nas amarguras e nas dificuldades deste mundo, sem perceber o horizonte infinito em que o Senhor nos coloca, o horizonte em que essas mesmas amarguras se tornam desafio positivo para a nossa felicidade.

2. As necessidades da Igreja

O Espírito entrou no mundo por meio de Nossa Senhora. Deus (o Mistério) se fez homem e continua presente entre nós por meio de Sua Igreja.

A vocação, então, não é casar ou não casar, dedicar-se aos outros ou construir sua própria família. A vocação é a minha relação com Deus, a minha relação com Cristo e com a Igreja, que é o Corpo de Cristo vivo hoje.

A conseqüência disso é que a condição para compreender a minha vocação é estar atento às necessidades da Igreja no mundo de hoje.

Do que a Igreja mais necessita no mundo de hoje?

Vivemos num mundo que se afastou da Igreja, um mundo para o qual a Igreja não faz mais sentido. Um mundo que se constrói sem Deus, que não precisa mais de Deus. Até se pensa em Deus nos momentos mais dramáticos, mas Ele não entra mais no cotidiano das nossas vidas: no nosso trabalho, nos nossos problemas de relacionamento, na nossa busca de realização.

A Igreja, hoje, precisa de um testemunho de Cristo no cotidiano da vida dos homens. Um testemunho que mostre como viver neste cotidiano na companhia de Cristo muda radicalmente a vida. Viver na companhia de Cristo é viver a nossa vocação, isto é, a nossa felicidade. Viver a companhia de Cristo é mostrar que é possível ser felizes de verdade no mundo de hoje tão profundamente marcado pela violência. Esse é o nosso desafio.

Aquilo de que a Igreja mais precisa hoje são Santos que possam ser encontrados no cotidiano da vida comum dos nossos dias. Mas quem são os Santos? São homens felizes, realizados na sua humanidade, que vivem conforme a sua vocação.

Peçamos a Nossa Senhora, neste mês de agosto, que ela nos torne fiéis à nossa vocação: que o Espírito Santo nos ajude a responder àquilo que Cristo nos pede no nosso dia-a-dia, para que todos os homens possam ser felizes.