Nossa Senhora da Ressurreição
Artigo publicado originalmente em
O Encontro, boletim informativo da
paróquia Coração Imaculado de Maria,
edição nº 2,
de abril/maio de 2004
por padre Vando Valentini, pároco
A Ressurreição?
No mundo de hoje, somente um quinto da população acredita (pelo menos como profissão de fé) na Ressurreição. Trata-se da Ressurreição de Jesus, da Ressurreição de seu corpo e, portanto, também da nossa ressurreição, da ressurreição de nosso corpo e de nossa alma, de nossa pessoa única.
A maioria não está nem aí com isso. E nós, que somos da minoria que acredita nisso? Será que nossa vida cotidiana é afetada pelo juízo que a Ressurreição nos traz?
O Ceticismo
O clima existencial e cultural que nos domina é determinado pela não-ressurreição.
Vivemos como se nada do que acontece nos tocasse.
Diante da violência das guerras, pensamos: não é conosco, é problema dos americanos ou dos judeus e dos árabes. Diante da violência de nossas cidades: isso é problema do Rio ou da periferia. Até mesmo quando um jovem é acusado de matar os pais (e isso aconteceu aqui, ao lado de nossas casas), parece que o fato não tem nada a ver conosco. Nosso ideal é nos safarmos sem muitos arranhões. Este é o lema de nossa cultura: cada um por si e Deus por todos.
O Anúncio da Páscoa
Houve um homem chamado Jesus Cristo que morreu por nós (por todos os homens) e que Ressuscitou. Diante dEle, o ceticismo e o vazio de nossa cultura e de nossa vida é vencido.
Tudo o que acontece tem a ver conosco, ou seja, comigo, todo sofrimento humano me diz respeito. Porque Ele carregou sobre si todos os pecados do mundo. Nossa vidinha mesquinha é lançada na aventura da Salvação do mundo inteiro.
A morte por amor e a ressurreição de Cristo são o anúncio da Misericórdia, da positividade última de todas as coisas. Tudo o que acontece em nossa vida pode e até deve ser vivido com esperança e com garra. Porque o que venceu não foi a morte, mas a Vida, a Ressurreição.
Com Nossa Senhora
No mês de maio, a Igreja nos convida a olhar para Nossa Senhora. Que tem a ver Maria, a mãe de Cristo, com tudo isso? O que esse convite da Igreja acrescenta? Olhar para Maria é fundamental para olhar para Cristo e para compreendê-lo. De fato, o que aconteceu com Maria foi que, para ela, o relacionamento com Cristo coincidiu com levar a sério todas as coisas, a realidade toda. Deus se fez carne, entrou na realidade e a resgatou, no seio de Maria. Pelo “sim” de Maria, o Deus-conosco, o Emanuel, entra no nosso cotidiano e o salva.
Peçamos, iluminados por Maria, que em cada pedacinho de nosso cotidiano possamos reconhecer a presença do Grande Mistério de Deus, que nos abraça com a sua Misericórdia.
Olhar para Ele morto nos consola e dá sentido a todas as dores, a todas as durezas, a todas as tragédias. Olhar para Ele ressuscitado, vencedor sobre o pecado e a morte, tira todo o desespero.
É isso que vence a nossa solidão, a nossa falta de significado, a nossa mesquinhez. Só assim a nossa afeição se torna amor, capaz de sacrifício e de oferta.
Amar o marido, a esposa, os filhos.
Amar o amigo, o colega de trabalho e o chefe.
Amar o vizinho e até o homem mais distante do mundo.
Um amor que permite retomar a vida todos os dias.
Um amor que tem uma força sobre-humana, a força dEle.
Um amor capaz de renascer mais forte a cada dia: na Eucaristia.